segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Ligue os pontos

Eu ligo os seus pontos, como um passatempo impresso no jornal de domingo ou um jogo complicado que ninguém sabe explicar.

Você pode pegar o verso da caixa e ler as instruções?

Não consigo entender as regras do seu dermografismo, as pintas são muitas, digo, os pontos, que são as suas pintas e que eu ligo formando quadrados ou sorrisos. A sua pele inteira me sorri com os rabiscos da unha e eu me incluo em você pelo hábito de te ligar - os pontos. Todos eles, depois de conectados por mim, formam constelações de pintas e de formas geométricas que só eu conheço e que pretendo, um dia, nomear ou vender na internet para que outros possam dar também nomes aos limites do seu corpo pontilhado.

A ligação de pontos despretensiosa, que era para ser uma brincadeira, transforma-se em colonização, te divido em capitanias hereditárias e vou morar na principal; seu corpo, enquanto for meu e suas pintas, enquanto forem pontos, serão considerados um serviço de utilidade pública, não para o uso coletivo, mas para a função de mapa, bem daqueles que ficam pendurados na estação do metrô e que permitem a um estrangeiro perdido encontrar sua estação.

O meu destino final foi um tanto difícil de desenhar, ficou pouco evidente no meio do emaranhado de tantas linhas e traços e pontos que eu liguei e desliguei e fiz com que sorrissem para mim na sua pele, mesmo sem ter lido o manual, mesmo com as peças faltando e as cartas fora do lugar.

Você pode fazer vinte perguntas para descobrir a minha localização, não estou na sala de jogos, na biblioteca e nem segurando um castiçal na sala de jantar, avance cinco casas, agora volte três, talvez um pouco mais para a direita, fiquei uma rodada sem jogar e acho que me perdi outra vez, vamos, tire a roupa, preciso abrir o meu mapa e te consultar.

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